Mãe Pagã e Pai Ateu...e agora?


Viver numa casa com diversidade de crenças é muitíssimo enriquecedor. Mas também é um compromisso eterno de empatia, respeito, humor, carinho, teimosia e paciência. Eterno. 
Dito isto, não trocaria a minha casa por nenhuma outra. Nenhuma. Com todas as correrias, discussões, subidas de escadas, limpeza por fazer, livros por arrumar, beijos apaixonados, beijinhos repenicados, canções (mal) cantadas, e baterias infernais a torturarem a nossa vizinhança. Não a troco por nadinha.
E sabem porquê? Porque sei que as diferenças (que as há!!! tantas!) residem nas crenças, não nos valores.
A minha casa funciona da seguinte forma: temas de interesse comuns são discutidos, debatidos, satirizados, desconstruídos, algures no meio os gatos fazem qualquer coisa que nos obriga a interromper e a correr com duas patas atrás de quatro, voltamos ao tema, alguém pergunta o que vamos jantar, faz-se uma piada sobre o assunto e acabamos a trocar a fralda à menina.
Em relação aos temas do foro religioso, pagão e ateu, o modus operandi é o seguinte: a mesmíssima coisa.
Este nosso processo deve-se a alguns factores relevantes, a saber: gostamos de rir, e quando um de nós leva coisas demasiado a sério (normalmente sou eu), o outro tem a obrigação de quebrar o siso com uma boa piada (as dad jokes abundam nestas assoalhadas); temos gatos em casa, o que leva à dificuldade orgânica de manter uma conversa longa ininterrupta sem perseguições sonoras a tampas, papel de alumínio ou ar; a menina é a melhor mediadora do mundo e sempre que as conversas/discussões se alongam, um simples olhar dela ou (e é fatal) um sorriso, e nós sabemos nos ossos quem tem os argumentos todos na mão...ela, que ganha, de bandeja, por nos lembrar que ela é a única razão verdadeiramente importante nas nossas existências.
Assim se entende, como é que alguém que acredita numa visão do universo composta por forças criadoras, Deuses, sabedoria ancestral e mitológica, magia e bruxaria, coabita com alguém que crê que a humanidade passa bem sem tudo isso se escolhesse bastar-se a si própria. Se é verdade que a minha visão pagã, abrange sem problema o valor da humanidade enquanto bússola dela própria, não é menos verdade que ele reconhece o valor de quem se pauta por uma crença religiosa ou espiritual que resulte numa pessoa integra, ética e consciente. Este é a verdadeira fórmula para boas relações: assumir que mais alto do que tudo está o respeito e os valores que temos (ter utopias em comum também pode ser divertido, mesmo que divirjam na origem).
E quando, por um ou outro motivo, as nossas diferenças criam sombras nas nossas ideias ansiosas pela vida perfeita, uma frase vos partilho que desarma qualquer ameaça nuclear: confia em mim, confia em ti e confia em nós. 
Há muitas escolhas que se fazem em e pela família, e todas elas pelo melhor. Paralelamente a estas, há todo um universo que não controlamos, que nos rodeia e vai dando cartas que temos de jogar queiramos nós ir a jogo ou não. Uma das escolhas que ajuda a gerir esta realidade paralela aos nossos desejos é a de o fazer em equipa. Este foi (tem sido) provavelmente o padrão mais difícil de romper nos meus hábitos. E na outra ponta desta minha circunstância está um "confia em nós" que nos convida a investir numa linguagem partilhada feita de experiências partilhadas (nunca subestimem o poder de união atrás de trocar fraldas cheirosas ou de estender roupa interior que não é vossa), onde episódios, fotos, música, refeições e gargalhadas reforçam a coesão da nossa casa. E respeitar as manias de cada um. Quem se acha meio tigre ou quem se acha devoto de Beatles, tem que ser respeitado e mimado.
Posso garantir-vos que nada nas crenças de uma e outra pessoa, condiciona um projecto comum, se estiverem preparados para assumir que mais alto do que as crenças, vive o objectivo da vida conjunta.
Relativamente à ideia de constituir uma família e organizar em casa um conselho executivo e pedagógico que oriente a educação das crias, asseguro que um "confia em nós" resolve 80% da coisa.
Os recursos dos quais dispomos são vários e, na verdade, o objectivo da educação é um só apenas: ajudar a criar um ser humano empático, ético, capaz de funcionar num mundo que precisa de melhorias urgentes (sempre!) e que possa confiar tanto em si como em nós e na nossa família. Se vamos envolver a criança nas nossas visões pessoais? Sim, vamos. Ela vai rodar com a mãe, cantar com a mãe, ouvir mitos com a mãe e aprender que há forças que se reverenciam quando as reconhecemos como fontes de aprendizagem e valor. Ela vai acompanhar o pai nas discussões e debates sobre o valor humano e a imensa capacidade que temos de suster ética e conscientemente o nosso caminho. E como não se pára de aprender, e as melhores relações são aquelas em que crescemos juntos cada um no seu processo, volto à primeira premissa desta crónica: viver numa casa diversa é  muitíssimo enriquecedor e, já agora, o título desta crónica devia ler-se "Mãe Pagã e Pai Ateu...e então?".


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