Sobre o impacto da 1ª Conferência da Deusa em Portugal


As Brumas de Avalon foram o portal para o Paganismo para muita gente. Mais, arrisco, toda uma geração. Sejam os livros ou os filmes (não vou discutir preferência até porque exaltaram públicos diferentes).
Isto significa que, para a maioria destas pessoas, conhecer o Paganismo se deu em simultâneo aquando conheceram a Deusa, ou seja, quando perceberam um sagrado feminino pertencente ao universo religioso com legitimidade na Europa. Sim, a Europa não começa na Roma Cristianizada, nem a sua cultura nem a sua profundidade espiritual e religiosa.
Compreender o lugar de um sagrado feminino no ocidente tem consequências. Aponto duas: polarização da manifestação divina numa dinâmica que se complementa em vez de se antagonizar (Deusa e Deus, noite e dia, luz e escuridão, etc.); a legitimidade em reconhecer uma manifestação no padrão feminino que pode celebrar o que o faz distinto do masculino (em vez de o esgotar em ideais de virgem, mãe sofredora e viúva num organismo que se dirige exclusivamente a um divino masculino por uma casta exclusivamente de sacerdotes homens). E já que estou numa de riscos, arrisco uma terceira consequência: a percepção da herança do continente europeu como terra fértil em mitos, panteões e entidades (entre as quais Deusas) que não só nos ajudam a sentir esta terra de forma diferente como também nos ajudam a perceber a história da religião, política e cultura deste ocidente e como foram jogadas as cartas no passado que resultam no nosso presente.
Mais um risco: se é verdade que muitos de nós fomos tocados pela libertação deste conhecimento, também é verdade que do outro lado essa atenção e interesse se fez sentir. Como vemos, também somos vistos, como conhecemos também somos conhecidos. E de facto, desde o lançamento e adaptações (várias!) das obras originais da Marion Zimmer Bradley, um furacão alastrou pelas encostas de gerações levando-as até às mãos de um passado novo, cheio de possibilidades e trabalho de estudo. No meu caso, não tendo sido a obra desta autora no particular, foi uma outra obra que me despertou para esta condição de mulher/poder, Vale de Mulher de seu nome. Curiosamente escrita por um homem. Um grande bem haja para você, Xosé A. Neira Cruz! Este livro foi-me dado quando fiz 15 anos, pela minha mãe. Era Janeiro. Nesse mesmo ano em Maio, chegou às minhas mãos (porque um amigo o tinha comprado por engano), o livro Manual Completo de Magia Branca para Adolescentes da Silver Raven Wolf. Foram estes livros, em especial o primeiro, que me deram o tom de entrada no universo do sagrado feminino, e nessa ansiedade que é encontrar as mulheres sabedoria que enquanto ancestrais e irmãs de caminho nos inspiram e orientam na edificação da nossa identidade e na construção da nossa vida enquanto memória do passado e enquanto esperança no futuro. Nós somos com elas. Elas são connosco.
Mães que se devotam a uma Deusa Mãe, anciãs que procuram uma Deusa Invernosa e Sábia, jovens que se revêem numa Deusa Donzela, e todas que celebram da primitiva força da criação, daquela que cria e recria vida, o amor e a morte. Curandeiras, benzedeiras, virtuosas, meigas, magas, bruxas...avós, mães, filhas e netas. Acordámos um poder de linhagem antigo e por todo o lado estas memórias surgem no nosso caminho, para que as recordemos, para que lhes voltemos a dar carne, voz e intenção. Somos deste movimento. Do movimento que olha para o feminino e procura a conciliação e o poder. Que os há.
Esta minha reflexão tornou-se-me urgente e imperativa em palavras depois da minha participação na Conferência da Deusa no mês passado (17,18 e 19 de Maio), em Sintra.
O desejo de amor e sororidade eram palpáveis e as magas cerimonialistas que conduziram este festival foram exímias em proporcionar-nos oportunidades para mergulharmos e sermos inundadas nessa irmandade feminina. Parabéns a estas Sacerdotisas. Parabéns ao Templo da Deusa do Jardim das Hespérides por acolher este projeto e o concretizar em Portugal.
Depois do primeiro episódio do Akelarre (vide e ouvi aqui), muitas foram as pessoas que comentaram connosco as Brumas de Avalon enquanto referência no início do caminho para o Paganismo. E depois da viagem que foi esta conferência, muita coisa se colou em sentido. Deixo-vos com esta imagem: mulheres em círculo, confiantes, sem medo, reverentes, orgulhosas, de mãos dadas, a cantar a uma força semelhante e ao mesmo tempo transcendente em espírito, muitas descalças, girando na terra, rodeadas de verde no meio de dois altares. Esta imagem para mim, em muitos níveis, é um grito de liberdade.
E que bela imagem. E que belos dias. E que belas mulheres chegámos e mais belas nos tornámos neste processo de conhecimento e descoberta do que nos faz "nós" enquanto seres humanos e sagrados.

Uma última palavra de gratidão à Joana Martins (E-An.Ki - Templo Sumério de Inanna) e à Alexia Moon (Sob o Luar e Iseum do Caminho da Terra) que comigo formaram a Irmandade da Resistência nestes dias da Conferência! Ao Tiago Loureiro (Axis Mundii), nosso irmão na Conferência e no Akelarre. E claro, ao Papá ateu que ficou com a filhota durante dois dias (tudo começa convosco).


Mais sobre:

Herança de Marion Zimmer Bradley enquanto autora
https://pt.wikipedia.org/wiki/Marion_Zimmer_Bradley

1ª Conferência da Deusa em Portugal
https://pt-br.facebook.com/conferenciadeusaportugal/

Jardim das Hespérides
https://marialuizafrazao.wixsite.com/luizafrazao

Akelarre
https://www.facebook.com/AkelarrePodcast/

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Darwin e o Paganismo

Carnaval no Paganismo em Portugal